Quando a população começa a ser contagiada pela cegueira
branca, as autoridades decidem colocar os cegos em quarentena. Essa quarentena
consiste em hospedá-los, sob uma série de regras, em um manicômio que se
encontrava abandonado.
A situação vivenciada pelos cegos nesse manicômio é semelhante
àquela que os animais de um abatedouro vivenciam: são impedidos de sair,
obrigados a viver em meio à sujeira de suas próprias vezes, desprovidos de quaisquer direitos.
“(...) lá iam, agarrados à barriga ou apertando as pernas, à procura de três palmos de chão limpo, se os havia entre um contínuo tapete de excrementos mil vezes pisado, (…)”. (SARAMAGO, 2015, p. 134).
Seu único contato com o mundo exterior é através da comida
que é deixada três vezes ao dia à porta do manicômio.
Nessa convivência no manicômio/abatedouro, as
características que diferenciariam ser humano de animal não humano desaparecem,
eles apenas existem, não têm mais controle algum sobre suas vidas, até mesmo
seus nomes deixam de ser relevantes para identificá-los. O pensamento das autoridades é quase unânime:
“(…) O sargento ainda disse, Isto o melhor era deixá-los morrer à fome, morrendo o bicho acabava-se a peçonha. (…)”
Ou seja, são como bichos para aqueles que ainda
enxergam. Além de bichos, estão doentes e isso seria o suficiente para que
fossem exterminados. Porém, é esse pensamento que é combatido por Saramago ao
mostrar como esses “bichos” se sentem: a agonia, o terror, o sofrimento, tudo exposto. Eles não se sentem dessa forma apenas porque são seres humanos, eles
se sentem assim porque as condições a que estão sendo submetidos são
insuportáveis até mesmo para seres que não têm poder de opinar em suas próprias
vidas e não são mais considerados "humanos".
Imagem disponível em: <http://veganos.org.br/porcos_7.jpg>. Acesso em: 29/11/15.
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. 70. reimp. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. 70. reimp. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

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