Essas cartas estudadas são povoadas de bichos no sentido denotativo,próprio,até mesmo a forma de comunicação entre Cascudo e Osvaldo envolve a metáfora animal,como no trecho onde Cascudo diz:"No fim de março devolva o bicho" aqui o livro é retratado como metáfora e ele está se referindo a um livro que deveria ser devolvido.
O amor pelos bichos vai além da obra de Cascudo,na obra de Fábulas "A Literatura Oral no Brasil" ele critica o meio utilitário como vemos os animais,a visão de Cascudo,de Osvaldo e outros autores modernos é a do animal e o humano lado à lado,ressaltando que nessas representações temos aspectos comuns com os bichos:orifícios,sangue,secreções,a morte,o impulso sexual,a fome e a doença.
Na Literatura diversos autores fazem referências aos animais com essa simbologia do ser,como por exemplo:Kafka (com as baratas) e Graciliano Ramos( com as "pegadas dos ratos") e a razão para isso vemos na citação a seguir do professor doutor Nonato Gurgel da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro:"A afirmação de temas e motivos animais sugere como os bichos (des) organizam a montagem social da cena e podem desautomatizar a mente e o corpo do homem.Sugere também ser a percepção construída ou mediada pela subjetividade animal que nos constitui.(NONATO,2015).
Um dado muito interessante é o diálogo de Clarice Lispector com Cascudo,no livro da autora A Hora da Estrela ela diz que "o nordestino é antes de tudo um sujeito paciente" e Cascudo em suas cartas coloca um animal como símbolo de virtudes como humildade,paciência,paz,esse animal é o jumento.
A figuração de animal mais marcante e que dá nome ao artigo do referido professor da UFRRJ Nonato Gurgel é Maracanã de Roçado que ilustra a seguinte fala na carta de Cascudo para Lamartine:"OSVALDINHO,beijo no focinho e Deus te abençoe!deixa de ser gritador,maracanã de roçado.Não posso deixar de responder ao aboio do sobrinho querido...ecoando nos tabuleiros cariocas.".Quando Cascudo chama o Osvaldo de maracanã de roçado ele está fazendo referência ao pássaro maracanã e ao lugar onde Osvaldo está que era o Rio de Janeiro,usando de forma brilhante e polissêmica esse termo e numa forma de ironia referindo-se ao Lamartine como pássaro de roçado,ou seja,matuto,da roça,nessa obra podemos ler de forma magistral o bestiário do sertão produzido ao longo de sua vida pelo autor considerado o maior sertanólogo do Brasil.
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