domingo, 29 de novembro de 2015

O cão de Saramago e o gato de Derrida


Pela primeira vez em Ensaio sobre a cegueira o animal não humano é colocado como sujeito, lançando seu olhar e ponto de vista para o animal humano. É o que acontece no trecho do cão das lágrimas:

"Os cães rodearam-na, farejaram os sacos, mas sem convicção, como se já lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar prantos. A mulher toca-lhe a cabeça, passa-lhe a mão pelo lambo encharcado, e o resto das lágrimas chora-as abraçada a ele."
(SARAMAGO, 1995, p.226)

Esse momento da obra pode ser relacionado com o gato de Derrida em O animal que logo sou, onde o animal não humano também adquire seu ponto de vista sobre o Homem:

"Ele tem seu ponto de vista sobre mim. O ponto de vista do outro absoluto, e nada me terá feito pensar tanto sobre essa alteridade absoluta do vizinho ou do próximo quanto os momentos em que eu me vejo visto nu sob o olhar de um gato."
(DERRIDA, 2002, p. 28)

DERRIDA, Jacques. O animal que logo sou. Tradução: Fábio Landa, São Paulo: Editora UNESP, 2002.
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

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